O discurso que não bate certo

 

Os nossos dirigentes da Ordem dos Médicos Dentistas têm ultimamente adoptado um discurso aparentemente benévolo e demagógico que, genericamente, vai no sentido de fazer transparecer que os seus críticos são uns arruaceiros ignorantes que reclamam por tudo e por nada sem antes se informarem. Exemplo do que afirmo são as declarações do nosso bastonário, colega Orlando Monteiro Silva, p.ex. na Revista OMD de abril 2017 em que afirma “escutar atentamente as diversas opiniões, sugestões, elogios e críticas que são enviados ao cuidado da instituição”. Continua o colega bastonário afirmando que “A Ordem e os seus dirigentes, nos diversos órgãos sociais, estão atentos, a todos escutando, a todos ouvindo, a todos respeitando”. Persiste no mesmo tom em junho 2017, na Revista Dentistry, afirmando que “a OMD recolhe informação e consulta os seus órgãos sociais e os médicos dentistas, para participar de forma integrada, defendendo as suas posições”.

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Carta Aberta a António Costa, Primeiro Ministro de Portugal

19 MAIO 2017

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro,

O meu sentido pragmático e pouca paciência para rodeios e grandes teorias fazem com que vá directo ao assunto: a integração da Medicina Dentária no Serviço Nacional de Saúde.

Terá V.Exa. conhecimento que aquilo que o Governo liderado por V.Exa. está a fazer é a compra de serviços de Medicina Dentária quando deveria estar empenhado em fornecer esses serviços á população portuguesa? É que se trata de conceitos e abordagens muito distintas entre si.

Sugiro muito respeitosamente, que questione o Exmo. Senhor Dr.Fernando Araújo, seu Secretário de Estado adjunto para a Saúde acerca do modo como está a ser executada essa integração dos médicos dentistas no SNS e verá que o assunto merece reflexão, ponderação e, estou convicto disso, uma reformulação do modelo defendido.

 

(…)

Rui Paiva

Médico dentista, portador da cédula profissional OMD nº 633, 51 anos de idade, 27 de formatura, sem filiação partidária, sem conflito de interesses académicos, profissionais ou pessoais.

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Reflexos da Indignação

António José de Sousa – Notícia no Jornal Expresso

Numa carta aberta ao bastonário, onde deplora o excesso de profissionais na área, por ocasião da abertura de uma rede de clínicas da Sonae.

 

 

“O coxo e o mentiroso”

Nem sei porque raio fiz esta associação de ideias entre o proverbial “mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo” e a figura do nosso bastonário. É que nem ele é coxo, nem o julgo mentiroso. Ressalva fundamental em tempos de manifestar discordância com o nosso máximo representante, confortavelmente instalado aos comandos de toda uma classe profissional desde há 16 longos anos, resguardando-me deste modo da concretização de ameaças, mais ou menos veladas, quanto ao dever de cada um de nós em preservar a idoneidade da Ordem dos Médicos Dentistas, “não prejudicando os fins da Ordem”… Mas quais serão esses fins da OMD?! Ficamos a saber, no editorial do nº 33 do órgão oficial de propaganda da OMD, escrito pelo nosso magnânimo líder, que, passo a citar,

“A Ordem e os seus dirigentes, nos diversos órgãos sociais, estão atentos, a todos escutando, a todos ouvindo, a todos respeitando”.

(…)
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Envergonhado

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Sr. Bastonário e colegas dirigentes da OMD,

 

Estando o senhor e grande parte da sua equipa como responsáveis da Omd há 16 anos, são os colegas os únicos responsáveis pela vergonha que sinto hoje como médico dentista.

Quando abracei a opção por esta profissão há 30 anos fi-lo pelo gosto à mesma; não foi a segunda ou terceira opção, foi mesmo a primeira.

Não o fiz pela roupa Prada ou pelos carros topo de gama, mas pelo gosto da arte dentária, pela independência como trabalhador que posso ter nessa profissão. Os carros, a roupa, as casas, as viagens são a consequência do empenho que possamos ter no nosso trabalho e esta profissão até determinada altura permitia ambicionar uma boa qualidade de vida.

Mesmo com o chavão do dentista é caro, era uma profissão respeitada pela população; o respeito por parte dos colegas de medicina é outra história.

Este ano marca a muitos níveis o atingir do ponto mais baixo na medicina dentária.

Não é o excesso de profissionais que justifica o estado lastimável a que a arte chegou.

A única justificação que encontro está nos órgãos sociais da Omd.

Tudo o que está a acontecer era previsível e o senhor e os seus pares nada fizeram para o evitar.

Quando a Autoridade da concorrência acabou com a tabela de preços os senhores nada fizeram para contornar o problema que daí surgiu.

Em devido tempo deveriam ter sido criadas as guidelines para os diversos tratamentos dentários; essas guidelines associadas à tabela de nomenclatura permitiriam ter o manual de boas práticas médico-dentárias, com isso e com os custos imputados à realização de cada acto médico seria fácil instaurar processos por dumping aos agentes que notoriamente fizessem anúncio a práticas clínicas perto do grátis.

Por outro lado o aparecimento de clínicas dentárias em espaços comerciais devia ter despertado nos senhores um olhar para o futuro e perceberem que esse iria ser o caminho previsível de alguns grupos económicos.

Evitar esta situação?

Simples, caros senhores.

Chama-se código de conduta.

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“A batalha de todos e de sempre”

Ainda a propósito da entrevista encenada ao nosso bastonário, disponível no site da OMD, agora novamente reavivada pela revista dentalpro.

Nesta suposta entrevista levada a cabo por um suposto jornalista, o colega Orlando, bastonário dos médicos dentistas desde há 16 longos anos, tece uma série de afirmações e acusações graves, porque carregadas de imprecisões e omissões.

A integração dos médicos dentistas no SNS, aspiração legítima de toda uma classe profissional mas igualmente de uma população carenciada de cuidados básicos de saúde oral, que ano após ano, tem visto o seu direito constitucional à saúde negado, deve ser levada a cabo com coerência, profissionalismo, honestidade intelectual e um equilíbrio justo para ambas as partes. Incluo o Estado financiador na parte da população.

Arvora-se o colega Orlando em mentor da integração dos médicos dentistas no SNS ao afirmar que “desde que iniciou as suas funções, entendeu que o modelo exequível a seguir era o da optimização da rede de clínicas e consultórios, de adesão voluntária”, que se designa hoje em dia como o programa do “cheque dentista”. Independentemente de averiguar quem decidiu o quê em nome de toda uma classe profissional, sem recurso a auscultação aos colegas p.ex. através da figura do referendo, chegamos a 2017 com o cheque dentista a abranger uma cada vez maior faixa de população.

Nós, na plataforma “Fazer Dentária”, não somos contra a integração dos médicos dentistas no SNS…

(…) Continua na área de membro. Inscreva-se e participe. Aceda aqui.

 

Rui Paiva, OMD 633

Os Anestesiados

 

Andaremos todos anestesiados? Alheados da realidade actual da Medicina Dentária? Nestes tempos cinzentos que correm parece que poucos de nós, demasiadamente poucos, se preocupam com o panorama da Medicina Dentária em Portugal. A sensação que me assola o espírito é a de um veleiro navegando em direcção contrária ao vento: poderia chegar ao seu destino de modo bem mais cómodo e rápido se o vento fosse de feição, mas é obrigado a ir ziguezagueando para poder avançar na direcção pretendida.

Também é verdade que os meios á nossa disposição, na qualidade de Médicos Dentistas independentes, para tentar fazer ouvir a nossa voz são parcos e de difícil acesso.

Devagar devagarinho, paulatinamente, vão-se degradando as condições de exercício da nossa profissão perante aquilo que considero a anuência resignada de quem nos representa e deveria defender.

O facto é que as condições do exercício da Medicina Dentária nestes últimos 30 anos se alteraram de tal modo que a realidade de hoje pouco tem a ver com o que era antigamente – se é que se pode classificar como antiguidade algo com 30 anos…

Há 30 anos entrei na então denominada Escola Superior de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Sabia para o que ia, não sabia o que me esperava. Esperavam-me 3 anos de formação básica com os colegas de Medicina, com os mesmos cadeirões, as mesmas aulas, as mesmas temidas avaliações. Esperavam-me mais 3 anos de formação específica em Medicina Dentária, com professores de alto nível, profissional e humano, de exigente cumplicidade, com vontade, brio e orgulho em bem ensinar a arte. Não havia computadores e aulas com “power points”, não havia tecnologias de media, não havia “show-of”, mas no primeiro dia em que se começava a trabalhar cá fora, tínhamos as ferramentas e os conhecimentos para ajudar quem nos procurava. Não havia disciplinas de ética na faculdade, esta era-nos transmitida e inculcada no nosso dia-a-dia de estudantes.

Quando instalávamos o nosso consultório, ninguém procurava lojas: era imprescindível trabalhar com luz natural. Instalar a sua consulta num centro comercial não passava pela
cabeça de ninguém. Todos se preocupavam em transmitir a seriedade com que se encarava a profissão e todos se orgulhavam em poder afixar o seu nome na fachada do consultório, condição sine qua non para se trabalhar legalmente. Não existiam designações provincianas ou pretensiosas cheias de estrangeirismos ou alardeando supostas, ou ás vezes reais, competências; havia discrição, havia respeito, havia aquilo a que se chama nível…

Existia brio e orgulho na prática da Medicina Dentária. Não havia nenhuma terceiromundialização cujo exemplo mais flagrante e repugnante é a publicidade a que hoje se assiste produzida por infelizes Médicos Dentistas ou com a sua complacência, na TV, na rádio, nos “flyers” que nos irritam os pára-brisas do carro e nos entopem as caixas do correio, nos ecrãs publicitários urbanos, na imprensa; a imaginação humana é o limite…até ás camisolas de equipas de futebol ou ás ementas de restaurantes.

Há 30 anos eram só rosas? Não, certamente que não. Havia exercício ilegal da profissão de difícil controlo. Mas não havia ERS, ARS, DGS, SIRAPAS, SINAS, INFARMEDS. Não havia obrigatoriedade de vinhetas, certificações e certificados, licenças e licenciamentos, placas e plaquinhas. Imperava o bom senso e a responsabilização profissional individual. Não eram imprescindíveis computadores com ligação á internet e telemóveis e sites e etc e etc que nos
infernizam o dia-a-dia no consultório. Sob o pretexto do controlo do exercício ilegal aceitaramse uma panóplia movediça de exigências, muitas delas irracionais, esteréis e infrutíferas. Teria bastado balizar o tal bom senso e responsabilidade profissional.

Há 30 anos atrás não se falava em sub-emprego nem em desemprego entre os Médicos Dentistas. Hoje é uma realidade que se começou a prever e temer há cerca de 25 anos quando abriu a primeira faculdade privada de Medicina Dentária. Consultórios fechados e colegas, não apenas recém-licenciados, com situações de falta de trabalho, agravado pela crise actual, são uma dura realidade dos nossos tempos. Não havia exportação forçada de Médicos Dentistas; forçada pelo excessivo numero de faculdades que todos os anos debitam jovens licenciados para um mercado de trabalho saturado. Não havia seguros dentários que empurram muitos de nós para situações vergonhosas, degradantes, perigosas. E tal como hoje, não havia lugar para a Medicina Dentária no Sistema Nacional de Saúde. Deve ter sido a única coisa que em 30 anos não mudou…

Espero poder voltar a muitos dos temas aflorados acima numas próximas oportunidades.

Entretanto, participe no que se pretende uma salutar discussão de temas relacionados com a nossa profissão. Escreva para o correio do leitor, deixe a sua opinião.

Rui Paiva

Médico dentista, OMD 633

paiva.rui@sapo.pt

– Artigo publicado na revista Saúde Oral, Junho 2014